Tudo é um bom mote
Tudo é um bom mote
para se querer poesia.
Basta escolher do lote
de coisas de um dia
e pedir uma emprestada
à realidade.
Bebê-la fria, bem gelada,
a verdade
líquida. O estômago
sem motes sorverá
o gélido âmago
do qual recriará
uma fotocópia fútil
e escura.
Pouco terá de útil
a candura
com que o fará, ou a
sólida dureza
do detalhe, da boa
análise, na mesa
as cartas. Pois
tudo se ultima
para depois,
no fim da rima,
se voltar à estaca
zero, ao dia sem poema.
E, forte ou fraca,
sobre alecrim ou alfazema,
a rima passada foi,
o verso vazio é.
Passou sem dizer "Oi",
pé ante pé ante pé.
Tudo é um bom mote
quando há falta de poesia.
Nada é um bom bote
quando está seca a ria.